Ferdinando

14/07/2010 - 12:47:09


Macbeth

 

 

Estou há semanas ensaiando para escrever sobre Macbeth, com Daniel Dantas e Renata Sorrah, em cartaz no SESC Pinheiros (SP). Fui na estreia, muito animada, com gente interessante. Para comer, tinha hóstias de provolone, que eu adoro (e, aliás, são facílimas de fazer – é so cortar o provolone e rodelas finas, deixar derreter, deixar esfriar). No intervalo, ri quando um amigo imitou o jeito de andar e falar do Dantas. Foi uma noite agradável. 


Bom, mas e a peça? Pois é, demorei para ter certeza do que vou escrever: não gostei. É difícil não gostar de um texto clássico (Shakespeare), dirigido por quem entende do assunto (Aderbal Freire-Filho, que já dirigiu o Wagner Moura fazendo Hamlet). E ainda tem a Renata Sorrah, uma das atrizes que mais me seduzem – e não só, mas também, porque fez a inesquecível Heleninha Roitmann. 


Mas este Macbeth não me seduziu. Passei todo o primeiro ato tentando me concentrar, mas não consegui. No segundo, minha imaginação foi longe e eu pensava no que iria fazer depois do coquetel. Sinal de que, enfim, não rolou para mim nada que tornasse essa experiência significativa. 


Há algumas sacadas bem legais. O cenário, de Fernando Mello da Costa, é criativo, com quatro grandes mesas que funcionam muito bem cenicamente: viram trilha na floresta, taberna, palácio. A iluminação (de Luiz Paulo Nenen) é fria, mas primorosa. Renata Sorrah faz uma Lady Macbeth sem exageros, mas marcante. No segundo ato, quando Lady Macbeth passa a ser perseguida por seus próprios fantasmas e acredita enxergar sangue em suas mãos, Renata conseguiu aumentar o nível de dramaticidade com poucos, mas significativos gestos. 


Isolados, esses elementos não conseguiram salvar o todo do espetáculo. Para não banalizar a crítica, faço uma comparação. Se a ênfase de um espetáculo está no texto, e não na teatralidade ou na movimentação em cena, é preciso que o público entenda o que está sendo dito. É o caso, por exemplo, do (excelente) H.A.M.L.E.T, do Club Noir (indicado semana passada ao Prêmio Shell-SP). No Macbeth do Aderbal-Freire Filho, muitas falas eram incompreensíveis. 


Admiro a trajetória dos envolvidos na montagem, sobretudo a coragem do Daniel Dantas de enfrentar o bardo inglês. Demorei para escrever justamente por achar que o problema poderia estar em mim, alguma deficiência ou falta de conhecimento. Mas, afinal, eu também sou público...

 

 

Escrito por Ferdinando às 12:47:09

12/07/2010 - 12:00:07


Zorro

Murilo Rosa estreia Zorro, o Musical, nesta quinta-feira, 16/7, no Teatro das Artes, em São Paulo. Existe algo mais masculino do que isso? Não falo só do mascarado, esse a gente conhece bem. Falo do Murilo, delícia que vi pela primeira vez fazendo o gayzíssimo Martim Caldeira na novela Xica da Silva, da Rede Manchete,  em 1996.  Depois, ele foi para a Globo, virou celebridade, ganhou prêmios, tornou-se fashionista, casou-se com a modelo Fernanda Tavares, teve um filho.


Murilo é um ator afável, com tempero de boy next door, o que aumenta ainda mais seu carisma. Tão humano, às vezes aparece lindo, malhado, peitoral definido, queimado de sol. Lembra da propaganda das Havaianas no último verão? Em outras ocasiões, vem desleixado, com pneuzinhos. Por isso mesmo, seu Zorro tem cara de gente normal, irresistivelmente acessível. Baseado em romance de Isabel Allende, o musical foi escrito por Stephen Clark e Helen Edmundson, com músicas do grupo francês Gipsy Kings, co-escritas e orquestradas por John Cameron.  Murilo, claro, faz o protagonista.


Zorro, The Musical faz sucesso no West End londrino desde o ano passado.  Conta a história de Diego de La Veja, desde sua ida para a Califórnia até assumir a identidade mascarada. Humor, esgrima, luta, dança, sapateado completam o clima.  A direção é de Roberto Lage.
 

Escrito por Ferdinando às 12:00:07

07/07/2010 - 13:02:59


Complexo Sistema de Enfraquecimento da Sensibilidade

Complexo Sistema de Enfraquecimento da Sensibilidade é um espetáculo grandioso e forte. Tão forte que tem gente que não aguenta. Vi na Casa Vermelha, de Curitiba, e no Satyros 1, em São Paulo. No Paraná, muita gente foi embora. Em São Paulo, o espaço não deixava fazer isso, já que para sair tinha de atravessar o palco. E quem não estava gostando deve ter ficado com medo. Eu adorei. É um experiência vivida pelos atores e pelo público. Violenta e cruel como qualquer rito de transformação. Teatro para ser vivido. Para poucos. E bons. Reestreou nesta semana, no Viga Espaço Cênico (SP). Direção de Ruy Filho e trilha sonora de Patrick Grant, do Living Theater.

 

 

Escrito por Ferdinando às 13:02:59

06/07/2010 - 13:48:46


Piva

 

Eu me lembro da estreia de Galeria Metrópole, peça do Mário Viana de 2003, se não me engano, no Teatro do Arcos. Sempre achei meio esquisita a localização desse teatro. Me dá a impressão que estamos prestes a cair na 23 de maio (para quem não conhece, é uma das principais vias expressas de São Paulo, ligando o centro à Zona Sul). Foi ali que passei a me interessar pelo Roberto Piva. Estavam vendendo seus livros no saguão do teatro e comprei uma edição de Paranóia, seu primeiro livro, de 1963.


Não que eu não houvesse conhecido Piva antes disso, mas foi naquele momento que passei a olhá-lo com mais atenção. A partir de então, tornou-se referencia. Piva faz parte de uma geração de desbravadores, que inclui Zé Vicente e Antonio Bivar, nosso primeiro artistas fora do armário que conseguiram colocar suas sexualidades heterodesviantes como parte central em obras de inegável qualidade. Souberam eles traduzir em palavras o que pode parecer contraditório à primeira vista: o gozo do centro de São Paulo, com sua agitada vida cultural (nos anos 60), garotos de programa e gente sem dinheiro (wannabes, atores, músicos, de tudo um pouco).


Piva foi embora, logo depois do Guzik. Morreu nesse fim de semana, depois de meses no hospital. Para entender melhor, tem texto do João Silvério Trevisan sobre o poeta AQUI. E segue poema piviano.


Praça da República dos Meus Sonhos


A estátua de Álvares de Azevedo é devorada com paciência pela paisagem
   de morfina
a praça leva pontes aplicadas no centro de seu corpo e crianças brincando
   na tarde de esterco
Praça da República dos meus sonhos
   onde tudo se faz febre e pombas crucificadas
   onde beatificados vêm agitar as massas
   onde García Lorca espera seu dentista
   onde conquistamos a imensa desolação dos dias mais doces
os meninos tiveram seus testículos espetados pela multidão
lábios coagulam sem estardalhaço
os mictórios tomam um lugar na luz
e os coqueiros se fixam onde o vento desarruma os cabelos
Delirium Tremens diante do Paraíso bundas glabras sexos de papel
   anjos deitados nos canteiros cobertos de cal água fumegante nas
   privadas cérebros sulcados de acenos
os veterinários passam lentos lento Dom Casmurro
há jovens pederastas embebidos em lilás
e putas com a noite passeando em torno de suas unhas
há uma gota de chuva na cabeleira abandonada
enquanto o sangue faz naufragar as corolas
Oh minhas visões lembranças de Rimbaud praça da República dos meus
   Sonhos última sabedoria debruçada numa porta santa 


PS: Não achei os créditos das duas fotos do Piva. Se alguém souber, me avise, por favor.

Escrito por Ferdinando às 13:48:46

29/06/2010 - 13:05:39


R.E.M.

Alguém resiste a uma foto como essa? Eu, não. E a origem é um homem legal do teatro, Luiz Valcazarras, do Núcleo Experimental dos Satyros. Diretor do aclamado Abre as Asas sobre Nós, de Sérgio Roveri (2006) ele está em temporada com R.E.M., espetáculo inspirado na obra O Sonho, de August Strindberg. Mostra um universo fragmentado e fantástico contando a história da deusa hindu Agnes, que desce à terra para conhecer os homens. Em cartaz no Satyros 2 (SP).

Escrito por Ferdinando às 13:05:39

29/06/2010 - 12:59:00


Alexandre e Heféstion

A história é conhecida para quem é de teatro. Lá na Grécia (sempre lá), o corifeu Tepsis resolve, no meio de um ditirambo, colocar uma máscara e gritar “Eu sou Dionísio”. Corifeu era quem puxava o coro e o ditirambo, uma espécie de procissão em honra ao deus do vinho e da festa. Nesse momento, Tepsis e público firmavam um pacto que seria repetido em todo teatro: fingimos acreditar que o ator, por um momento, deixou de se apresentar como sujeito para dar lugar à personagem.


É fascinante observar como, a partir de então, o teatro tornou-se um lugar em que tudo pode ser dito das mais variadas formas. Do melodrama à tragédia, da pesquisa ao comercial, da super-produção-sucesso-de-público às experiências mais modestas. É assim, com espírito desarmado e consciente de que há espaço para todos os teatros, que fui ver Alexandre e Heféstion, direção de Edu Ribeiro e Joice Hilário (Cia. Profana de Teatro), em cartaz no Studio 184, em São Paulo.


A sala fica na Praça Roosevelt e todo mundo sabe que por ali a concorrência não é fácil. Para começar, tem Os Satyros, nosso grupo mais revolucionário. Tem também Os Parlapatões, que segue sua séria linha de pesquisa. Por isso, estrear à meia-noite de quinta-feira por essas bandas é um ato de coragem. E coragem, me parece, não faltou aos atores Tercio e Rômulo Gennari.


Descobri na Internet que eles são irmãos. Já participaram de trabalhos com o Ronaldo Ciambroni e são profissionais. Me encantou a forma como os dois se jogam nos papéis do imperador grego Alexandre e seu amante, Heféstion. O texto é bem estruturado. Trata de temas que hoje nos são caros, como a lealdade e o poder. Mais do que falar de preconceito, discute os limites entre a ética pública e a vontade privada dos governantes.

Há falhas, como era de se esperar. Sente-se, sobretudo, falta de uma direção de arte que daria contornos mais vigorosos ao espetáculo e evitaria erros grosseiros, como deixar à mostra deslocados elásticos nos figurinos. A vitalidade de Tércio e Rômulo, porém, garantem a dignidade da empreitada. São atores de colorido próprio e, ao que parece, comprometido com a arte de representar.


A partir desta semana, a peça começa carreira às quartas-feiras, 21 horas. Tomara que os novos dia e horário tragam bons ventos para Alexandre e Heféstion.

Escrito por Ferdinando às 12:59:00

28/06/2010 - 19:18:30


Renato Russo

Demorou, mas chegou. Renato Russo, o musical, estreia nesta sexta-feira (2 de julho) em São Paulo, no Teatro Folha, quase cinco anos depois do Rio.  Escrito por Daniela Pereira de Carvalho e interpretado por Bruce Gomlevsky, o espetáculo ganhou o Prêmio Shell 2006 de melhor direção, assinada por Mauro Mendonça Filho.


Conta a história, claro, do artista desde sua adolescência, em Brasília. São 22 músicas, com banda ao vivo. A trajetória passa pelas bandas Aborto Elétrico e Legião Urbana, a chegada do filho Giuliano, a declaração da homossexualidade e o desejo de recolhimento. Mas não é um espetáculo somente para fãs.


De início, fiquei sem vontade de assistir. Quando adolescente, Renato Russo traduzia minhas angústias. Hoje, suas letras pouco me dizem. Talvez seja porque, nesse meio tempo, fiz quatorze anos de análise lacaniana. Mas Renato Russo é uma referência. Obrigatória. Afinal, ele foi o lado mais melancólico do rock brasileiro.


Não quero com isso falar do rock nacional, sobretudo do aclamado Rock Brasileiro dos Anos 80. Isso é mistificação tupiniquim. O que houve por aqui pouco diferiu dos outros países. A Argentina, nossa hermana, teve Charly Garcia e Spinetta antes de aparecerem os Titãs, Paralamas e afins. Renato Russo vale por si só, sem precisar ser pendurado em nenhum movimento mais amplo.


Rimbaud dos trópicos, Peter Pan sem Wendy (Brasília é a Terra do Nunca, sem dúvida), soube traduzir, inocente e cruel, o que as pessoas sentiam no momento em que a Aids punha freios à liberação sexual (se é que ela houve...) e os gays eram, mais uma vez, estigmatizados. A semelhança de Gomlevsky com o canto assusta e fascina. Por tudo isso, Renato Russo merece ser visto e ouvido. Veja as fotos.

Escrito por Ferdinando às 19:18:30

28/06/2010 - 18:47:35


Guzik

 


Eu me lembro como conheci o Alberto Guzik. O Sérgio Miguez, na época às voltas com a livraria Futuro Infinito, me indicou seu livro Risco de Vida. Eu tinha de terminar de escrever minha dissertação de mestrado, mas não consegui parar de ler. Foram quatro dias perdidos de trabalho, mas achei fascinante mergulhar no universo dos anos 1980, do fim da ditadura, dos yuppies, das festas e das drogas. E da Aids. Fui adolescente demais nesse período para ter vivido tudo isso com a mesma intensidade relatada por Guzik.


Anos mais tarde, entrevistei Guzik para o Mix Brasil. Falamos sobre Transex e Rua Taylor, 214, duas peças que ele estava envolvido no Satyros, na época. Não sei dizer se ficamos amigos, mas sei que a partir de então sempre houve muito carinho entre nós. Ele me escrevia quando queria dar bronca, e eu gostava. Sentia-me deliciosamente vigiado. Na Roosevelt, eu sempre esperava por seu selinho, que vinha com alguma observação em voz rouca.


Pelo teatro, o que Guzik fez é sempre bem lembrado. Foi crítico, dramaturgo, ator. Escreveu nosso principal livro sobre o Teatro Brasileiro de Comédia. Quero lembrar sua contribuição para nós gays. Guzik nunca foi militante. Não sei se ele ia à parada. Nunca falamos sobre isso. Mas sei que ele fez muito mais do que os que marcharam para Brasília em maio. Fez política com sua homossexualidade quando foi preciso, retratou a diversidade em suas peças e textos, resgatou a dignidade para travestis, transexuais e garotos de programa.


Olho para a estante e vejo três exemplares de seu livro sobre Os Satyros. Um deles comprei somente para ele autografar, na festa da SP Escola de Teatro. Tenho ainda duas horas de uma entrevista inédita, gravada no camarim poucas semanas após a estreia do Monólogo da Velha Apresentadora.  Me lembro bem de vários trechos, da entonação e das ênfases, das pausas e dos desvios. Evoé, Guzik!


PS – Na foto,  Chico Ribas em cena do Monólogo da Velha Apresentadora. Guzik falava muito bem do ator, que, se não me engano, foi seu aluno.

Escrito por Ferdinando às 18:47:35

14/06/2010 - 13:18:46


Tango sob dois olhares

Já falei várias vezes que Débora Colker está nos devendo uma coreografia com pitadas mais explícitas de homoerotismo. Afinal, é quase impossível hoje em dia encontrar um coreógrafo contemporâneo e antenado que não tenha feito alguma sequencia com dois ou três homens. A lista é imensa e, de cabeça, eu cito o Rodrigo Perdeneiras, o Rodrigo Rodovalho e o Anselmo Zolla, com todo seu trabalho na Cia. Sociedade Masculina.


Semana passada, conversando com o Edy Wilson, do Grupo Raça Companhia de Dança, fiquei surpreso com o trabalho da Roseli Rodrigues. Falecida em março deste ano, ela foi um dos principais nomes da dança no Brasil, tendo feito, entre outras coisas, a coreografia de Vitor ou Vitória, com Marília Pêra e direção do Jorge Tackla, e Godspell, do Miguel Falabella.


Edy me falava de Tango sobre dois olhares, trabalho da companhia escolhido para a Mostra Contemporânea do 28º. Festival de Dança de Joinville, o principal do país, que acontece entre os dias 21 e 31 de julho. Ele me dizia que a inspiração de Roseli foi a história do tango, desde seu sfeito coreografias para dois homens, já que o tango, em sua origem, era dançado em público somente por muchachos. “Como poderia deixar de incluir?”, ele me perguntou surpreso. Disse que havia coreografias para dois homens e, igualmente, para duas mulheres.


Procurei na Internet outros trabalhos do grupo. Para minha surpresa, encontrei várias passagens com dois homens ou com duas mulheres. Todas lindas de se ver. Pena que Débora Colker, de quem sou fã, nunca fez nada parecido. Se eu estiver enganado, me avisem.

Abaixo, duas sequencias. Em Cartas Brasileiras, a cena com dois homens começa depois de um minuto. Do Tango, o melhor vídeo que consegui foi de um ensaio.

 




 

Escrito por Ferdinando às 13:18:46

24/05/2010 - 18:44:10


Casa Cor

Divulgação/Marco Antonio

Fernando Oliveira no Studio do Designer. Olha a releitura do Cubo Mágico em forma de gaveteiro.

Fernando Oliveira no Studio do Designer. Olha a releitura do Cubo Mágico em forma de gaveteiro.

Abre amanhã, 25/5, em São Paulo, a edição 2010 da Casa Cor, maior evento de arquitetura, decoração, design e paisagismo do Brasil. Sempre aguardo com expectativa essa data. Geminiano com ascendente em Câncer, adoro novidades e adoro coisas para casa. No último sábado, fui no tradicional brunch para a imprensa e, tirando o lero-lero de sempre dos patrocinadores e um manjado menu do restaurante Barbedec, gostei do que vi.


Para começar, acho que, nesta edição, souberam equacionar problemas de anos anteriores, sobretudo equilibrando tecnologia, tradição e modernidade. Isso não é fácil. Em geral, o público endinheirado que freqüenta a Casa Cor é mais conservador. Algumas mostras em anos anteriores, para garantir esse público avesso às vanguardas, traziam ambientes com uma sofisticação empoeirada, ostensivamente caro e, pior, cafona.


Esse perfil, porém, começou a mudar nos últimos tempos. Felizmente! Desta vez, chamou a atenção o trabalho de Saulo Szabó e Fernando Oliveira, no ambiente Studio do Designer. Os móveis, de fabricação própria, são práticos, ecológicos, modernos e coloridos na medida certa. João Armentano também mandou muito bem, criando uma casa de ratos conceitual, instigante. E os lofts, todos, apresentaram soluções para viver bem em ambientes menores, integrando quarto-sala-cozinha-banheiro-escritório em um único espaço.



Se as atendentes da Casa de Chá fossem um pouco mais simpáticas, Casa Cor 2010 ficaria perfeita. Quem sabe até o fim da mostra elas aprender a dar um sorrizinho.

Escrito por Ferdinando às 18:44:10

14/04/2010 - 09:42:15


A Forma das Coisas

Tenho uma profunda admiração pelo Guilherme Leme. Acho que ele é um dos poucos atores que conseguem dosar o lado comercial com o artístico. Também acho que ele está sabendo envelhecer sem perder o frescor. No ano passado, fez um belíssimo e difícil trabalho de interpretação em Os Estrangeiro, dirigido por sua amiga de todas as horas Vera Holtz. Na direção, Guilherme demonstra segurança e precisão, como fez em A Idade da Ameixa, de 2006, que até hoje viaja pelo Brasil.

Amanhã, 15/4, estreia um novo trabalho dele na direção. O texto escolhido é A Forma das Coisas, do Neil Labute, autor que tem chamado a atenção dos brasileiros. Só em São Paulo, tem outros duas peças suas em cartaz, Gorda e Restos. A Forma das Coisas vai ficar às quintas e sextas, no Espaço dos Parlapatões. Em cena, dois casais e histórias de transformação - inclusive física. O nerd da foto abaixo, por exemplo, vira um homem muito interessante. A co-direção é do Pedro Neschling.

Divulgação/Paula Kossatz

A Forma das Coisas

A Forma das Coisas

Escrito por Ferdinando às 09:42:15

12/04/2010 - 23:48:02


Latidos

Divulgação

Um latido musical

Um latido musical

 

Fui ver Bark no último sábado, lá no Shopping Frei Caneca. Falar que os cachorros se parecem com os donos é coisa antiga. O que os americanos David Troy Francis e letras de Gavin Geoffrey Dillard, Mark Winkler e Robert Schrock conseguiram fazer foi transformar isso em um espetáculo gostoso de ser visto. Bark, um latido musical, em cartaz no Teatro Nair Bello, em São Paulo, é original, divertido e nada careta.


Há vários níveis de interpretação possíveis em Bark. Crianças gostam, mas não percebem que por trás de algumas palavras há uma linguagem cifrada, só acessível a quem entende. Dessa forma, questões relativamente polêmicas entram em cena.


A história é simples, como qualquer musical. Um animado grupo de seis cachorros se encontra pelas ruas do bairro todos os dias e conversam sobre suas angústias, suas alegrias e – claro – fofocam sobre seus donos. Cada um é de uma raça e canta em estilo musical diferente, incluindo blues, hip-hop, ópera, mariachi e jazz. Um deles não sabe latir. Outro, está velho demais para correr. Uma poodle é apaixonada pelos seus donos, um casal gay. E um vira-lata revela que já fez show de drag. Uma cadela hippie tem barato cheirando meias.


A direção, de José Possi Neto, imprimiu um ritmo gostoso, ágil na medida certa. O cenário e o figurino, comparado com outras montagens, é fino e sem excessos. Na Internet, tem vídeos de Bark nos Estados Unidos, onde estreou há cinco anos. Compare e veja.

Escrito por Ferdinando às 23:48:02

07/04/2010 - 23:02:50


Frescos, entendidos, gays

Havia um tempo, entre a I e a II Guerra Mundial, em que os homossexuais no teatro brasileiro apareciam  como “frescos” – afetados, divertidos, inofensivos se se mantivessem contidos e quase invisíveis. Eram retratados em comédias ou no teatro de revistas, sempre fazendo graça com seus fru-frus.


Na revista A mulher e o automóvel, de Nicolau Teixeira, apresentada em 1930 pela Companhia Genésio Arruda, São Paulo, um personagem dizia a certa altura: “esse lugar aqui está muito quente, vou precisar de um fresco”. Era a senha para ir ao jardim, encontrar-se com um afeminado.


O “fresco” era uma figura bem identificada. James Green chega a dizer que eram criaturas noturnas, que no Rio de Janeiro vagavam pelo Largo do Rossio (Praça XV) em busca de companhia. “Enquanto nenhuma mulher de boa família ousaria sair da casa desacompanhada depois do por-do-sol, os ‘frescos’ podiam percorrer sem problemas as ruas do centro à procura de aventuras sexuais até a alta madrugada”. Para João do Rio, cronista (homossexual!) do Rio de Janeiro no início do século passado, afirmava que os frescos tinha “o vírus da observação”.


Na mesma linha, o pesquisador Valmir Costa afirma que o “fresco” era “um misto de degeneração social e a modernização, como se o processo de urbanização e a transformação dos costumes tradicionais fossem os culpados pelo comportamento homoerótico”.


Hoje, “frescos” e “entendidos” pertencem ao passado. Gays e homossexuais aparecem em peças tão distantes como a caricata O Amante do Meu Marido, com Mateus Carrieri  (ainda em cartaz em São Paulo) e Réquiem para um rapaz triste (também em cartaz – não perca!). Sem  falar no gatinho suspeito de Cats.


Essa volta toda, que no jargão jornalístico seria chamada de “nariz-de-cera”, é para dizer que foi muito merecida a consagração de In on It na 22ª edição do Prêmio Shell, realizada segunda-feira, só para os espetáculos do Rio de Janeiro. Foi a única peça que ganhou em duas categorias, Direção (Enrique Diaz) e Ator (Fernando Eiras). Não é uma peça gay, mas estamos lá muito bem representados em uma crise de casal. Elegantes, civilizados e – felizmente – sem nenhum clichê ou preconceito.

 

Divulgação

Entre outras coisas, gays.

Entre outras coisas, gays.

 

Escrito por Ferdinando às 23:02:50

20/03/2010 - 10:44:07


In Sustentável

Não há mais amor como antigamente. E é preciso encarar isso sem nenhum saudosismo. A rapidez do mundo atual, as novas possibilidades de carinho e prazer que não se limitam à linha papai-e-mamãe e a ampliação virtual dos sentidos abriram caminho inéditos no campo afetivo.  É nesse fluxo que se insere In Sustentável, trabalho vigoroso da Cia. Arte e Performance , de Araraquara, interior de São Paulo, atração do Festival de Curitiba 2010.


No palco, são três homens e uma mulher. Bailarinos-atores de coloridos diferentes que froam um mosaico fascinante. A direção, de Sabrina Rocco, não anulou as expressões individuais e soube dosar as qualidades de cada um. Juntos, dançam e encenam o que seria os relacionamentos amorosos hoje, quando o príncipe encantado pode ter um caso extraconjugal com outro homem e Branca de Neve tem de se virar sozinha. A companhia não se esqueceu de contemplar manifestações homoafetivas, com coreografias que envolviam dois homens ou uma personagem que se declara bissexual.


Embora comece de maneira tímida, aos poucos a coreografia desenvolve-se em movimentos mais elaborados e arriscados, alguns remetendo à street dance, além de uma sátira ao balé clássico – justamente na sequencia sobre Branca de Neve e o príncipe. Cabe aqui parabenizar a prefeitura de Araraquara, pela ousadia de apoiar esse espetáculo.


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Neste ano, a organização do Festival de Curitiba dividiu as salas de acordo com o gênero do espetáculo. De um lado, facilita a vida de quem, por exemplo, só gosta de comédia, ou drama, ou infantil. De outro, isso atrapalha a formação de público para espetáculos menos populares. Afinal, expressões como “experimentação”, “teatro físico” e “performance” assustam as platéias mais inclinadas para o teatro convencional.


O Solar do Barão foi prejudicado, já que abriga produções de pesquisa. É pena, já que estão programadas para lá apresentações que merecem ser vistas por uma platéia maior. É o caso de In Sustentável.


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A epidemia de stand-up está forte por aqui. É ela que domina os anúncios pagos do guia do festival. Só a companhia Os Comediantes apresenta dez piadistas.


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Já cansaram de explicar: Travesties, primeiro trabalho da Cia. Ópera Seca sem a direção de Gerald Thomas, não é sobre travestis. A peça, de Tom Stoppard, é uma comédia sobre arte, política e revolução.

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A programação do festival está em www.festivaldecuritiba.com.br

Festival de Curitiba

In.jpg

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Escrito por Ferdinando às 10:44:07

19/03/2010 - 13:05:00


Dias de Setembro

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Dias de Setembro, masculino e delicado

Dias de Setembro, masculino e delicado

Lucas Sancho, ator e autor de Dias de Setembro, explica que pesquisou o conceito de “amor líquido”, do sociólogo Zygmut Balman, para criar o espetáculo Dias de Setembro. Nem precisava de tanto intelectualismo, ainda que, no caso, isso seja bem-vindo. O fato é que espetáculo é uma das melhores apostas no Fringe, mostra de teatro paralela do Festival de Curitiba.


A história é simples. Em uma noite de setembro, Henrique tenta escrever uma carta para seu ex, Eduardo. Tenta entender o que deu certo e o que levou ao fim. Não consegue chegar a grandes conclusões, é óbvio. Ninguém consegue. Mas como todos os abandonados, ele tenta. Pede, delicadamente, a ajuda e o carinho do público. Segura na mão de um, pede para outro ler um trecho do que escreveu, usa o celular e come o chocolate de outro. Sente-se só, mesmo assim.


Gay sem exageros, a peça equilibra masculinidade e delicadeza na dose certa. Somos levados para seu quarto, sua casa bem decorada, suas emoções fora de lugar. Ele é lindo, é sedutor e sabe retirar da platéia o que quer. Impossível resistir, e ninguém deseja isso. O jeito é se deixar levar pelo garoto que chora as dores de outro amor. Um rádio antigo, um abajur, papéis e lápis nos observam, mas é Lucas/Henrique que nos interessa.


Dias de Setembro tem apresentações de 21 a 24 de setembro. Veja programação no site www.festivaldecuritiba.com.br .

Escrito por Ferdinando às 13:05:00

19/03/2010 - 12:46:12


Till

Ele é uma espécie de Macunaíma, só que sua história se passa na Alemanha medieval. Till, A Saga de um Herói Torto, criação dos mineiros do Grupo Galpão apresentada no Festival de Curitiba 2010, é um bom exercício de ética.


A peça começa com ma aposta entre Deus e o Diabo. O que aconteceria se do homem fossem retiradas algumas qualidades, como a inteligência e a consciência? O Diabo acredita que ele cairia em perdição. Deus aceita o desafio e assim nasce Till, de cabeça oca e comportamento amoral. Claro, mete-se em enrascadas, faz burrices, mas acaba se virando.


Por outro lado, vive num ambiente de miséria e as pessoas que encontra pelo caminho, ainda que inteligentes e conscientes, não agem de maneira muito diferente da sua. Seu caráter seria, portanto, resultado de sua condição individual ou coletiva? Seria o homem sempre o lobo do homem? Boa e antiga pergunta.


Festival de Curitiba

História de herói amoral no Parque Birigui, em Curitiba

História de herói amoral no Parque Birigui, em Curitiba

Till, A Saga de um Herói Torto tem ainda uma iluminação inteligente, de grande poder expressivo. O inverno, por exemplo, é sugerido por uma luz fracamente azul, sem necessidade de qualquer alteração no cenário. No Festival, continua até esta sexta, 19/3, na Ópera de Arame. Depois, boa notícia, terá duas sessões grátis no Parque Barigui. Para ver dias e horários, acesse www.festivaldecuritiba.com.br.

 

Escrito por Ferdinando às 12:46:12

19/03/2010 - 11:45:53


Cinema

 

Festival de Curitiba

Para se ver na platéia: Cinema, da Sutil Cia. de Teatro

Para se ver na platéia: Cinema, da Sutil Cia. de Teatro

Para muita gente, talvez a maioria das pessoas, “cinema” é o local em que se passam filmes. Ponto. Mas pense bem: quem nunca teve uma história no cinema? Eu, por exemplo, me lembro um dia no Espaço Unibanco em que uma histérica falava o tempo todo e foi preciso parar a exibição do filme para a fofa se tocar. Mico total. Sem contar que fiquei com o Beto a primeira vez no Cinesesc, no meio do Show do Gongo de 2005. Desde então, nunca mais nos separamos.

 

São casos assim ou um pouco mais exagerados que compõem o universo de Cinema, peça que a Sutil Companhia de Teatro estreia no final de março no Sesi da Avenida Paulista. Nessa quinta, 18/3, dois ensaios abertos, parte da programação do Festival de Curitiba, mostraram o espetáculo pronto, ainda que o diretor, Felipe Hirsch, tenha alertado para possíveis mudanças.

 

Trata-se de uma experiência contemporânea, antenada com as mais recentes renovações da cena teatral. São pequenos fragmentos que se encaixam aleatoriamente, reproduzindo o fluxo da vida, não do drama. Para o expectador, o tempo não deixa de fluir enquanto assiste. Ao contrário, vive-se junto com atores atrizes um presente contínuo em um espaço fechado, o da platéia de cinema.

 

Aliás, a proximidade do público, sentado em uma arquibancada paralela a do espaço cênico, cria um espelhamento. Em outros tempos, poderia-se pensar que seria esse público o filme que os atores assistem, mas não é bem assim. Pelo áudio, trechos de filmes deixam claro o que estaríamos vendo a cena de fora, como se estivéssemos de fato em um cinema, mas paramos de prestar atenção na tela para observarmos a loucura humana do público.

 

E, nesse sentido, tem de quase tudo: casal que briga, casal que se pega, gente que conversa, gente que chora. Um casal gay com cara de intelectuais, duas lésbicas parecendo drogadas. Alguém passa um bilhetinho, outro procura sexo anônimo.  E qual a graça de ver isso? Bem, somos todos assim e é justamente nessa identidade com as cenas que encontramos conforto. Afinal, é sempre bom saber que não estamos sós em nossas loucuras.

Escrito por Ferdinando às 11:45:53

15/03/2010 - 17:49:16


O Papa e a Bruxa

Luiz Doroneto

Com ingressos esgotados no Festival de Curitiba, peça reestreia em maio em SP

Com ingressos esgotados no Festival de Curitiba, peça reestreia em maio em SP

As duas sessões do espetáculo O Papa e a Bruxa no Festival de Curitiba, dias 20 e 21 de março, estão com os ingressos esgotados. Não é para menos. Escrita pelo Prêmio Nobel Dario Fo, a peça é um dos pontos altos da trajetório do grupo Parlapatões.

A peça é considerada um dos mais importantes do dramaturgo italiano, Prêmio Nobel de Literatura em 1997. Lida, de forma cômica, com o atraso da Igreja Católica que insiste em proibir a camisinha, o casamento de padres, a pílula, a maconha e a homossexualidade. O programa da montagem dos Parlapatões explica que foi durante a visita de Bento XVI ao Brasil, em 2007, que o grupo fez uma nova leitura do texto.

A montagem do grupo traz elementos do circo-teatro e da comédia de costumes, com chistes que rementem à realidade brasileira contemporânea. Pronto para receber criancinhas na Praça São Pedro, Sua Santidade vê-se acometida de dores na coluna e recebe seu médico e uma freira com poderes paranormais - uma curandeira disfarçada, na verdade. Por conta dela, ele deixa o Vaticano, conhece o mundo real e, na volta - adivinhem - libera geral.

A direção de Hugo Possolo é precisa, mas abre espaço para as expressões individuais. Mantém uma certa "gayzice" em todo o tempo da apresentação. O cenário, bem acabado, é leve e versátil. E para dar um colorido especial, Antônio Fagundes faz a voz de Deus, em off. Ponto também para o CTA Henfil, que aproveitou a oportunidade para distribuir camisinhas junto com o programa da peça.

Quem perdeu em São Paulo ou em Curitiba, a boa notícia é que O Papa e a Bruxa volta em maio, no Teatro Artur Azevedo, na capital paulista.

Escrito por Ferdinando às 17:49:16

15/03/2010 - 17:01:22


Maternidades

Divulgação

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Demorei para ver Maternidades, no Espaço do Satyros I. Apesar de gostar – e muito – do trabalho do André Fusko (que assina texto e direção) e da Amanda Acosta, a proposta em si não me despertava interesse. Afinal, cada vez que me deparava com o título da peça, me lembrava dos 14 anos de psicanálise que fiz para lidar melhor com minha mãe e tudo que herdei dela.

No sábado à tarde, tentando decidir o que assistir à noite, as três estrelas que o espetáculo ganhou da Veja SP me chamaram a atenção. O horário, 19h, também era conveniente – às 21h, eu iria rever O Papa e a Bruxa, nos Parlapatões. Que bom! Maternidades é um trabalho competente, bem acabado em todos os detalhes, do jeito certo para quem gosta de bom teatro.

Ao entrar, uma poltrona coberta por um tecido brilhante e um círculo, feito com o mesmo tecido. Atravessamos uma nuvem de gelo seco e logo em seguida aparece Amanda. Senta-se com autoridade e, copiando as palavras do crítico da Veja, demonstra “consistente talento dramático”. É, de fato, uma atriz surpreendente (vale lembrar, foi ela quem protagonizou as recentes montagens paulistas de My Fair Lady, em 2007, e Esta é a Nossa Canção, em 2009). Carismática como sempre, em alguns momentos sua expressão me lembrou as fotografias de Cacilda Becker em cena.

Ao todo, são quatro monólogos que Amanda interpreta sem intervalos, apenas uma breve pausa para adaptar o figurino e caracterizar melhor a personagem. Um versátil colar se transforma em alça de mochilas, cinto e coroa. A primeira mulher é uma arrogante mãe de classe média alta preocupada com o filho que quer ser jogador de futebol e gosta de pagode. A segunda, uma adolescente daquelas que intercalam um “tá ligado” entre uma frase e outra, encantada com a possibilidade de um dia ser mãe. A terceira, uma jovem senhora com dificuldades para domar suas pulsões. Por fim, uma idosa faz o balanço da idade.

Em todas elas, há o relato de sujeitos divididos. Sem recorrer a mitos e estereótipos sobre a maternidade – o que não é fácil –, o texto navega entre contradições que nos são caras: a da sociedade brasileira atrasada e vanguardista, a do desejo domado pela moral, a do projeto de vida que insiste em sair do traçado que planejamos. Do particular ao universal, Maternidades é uma peça de artistas maduros, ainda que jovens.

Não por acaso, é a quarta personagem, já idosa, que levanta a bandeira da diversidade, defendendo a liberdade de expressão dos gays. Sinal dos tempos.

Escrito por Ferdinando às 17:01:22

12/03/2010 - 17:22:50


Corte seco

corteseco.com

CorteSeco-SJM-115.jpg

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Havia um tempo em que era quase pecado mostrar os artifícios que há por trás de uma encenação. As inúmeras decisões do diretor, os vacilos dos atores e, sobretudo, a arquitetura do espetáculo deviam mostrar-se prontos e acabados para o público. Hoje, esse modelo, ainda que sobreviva, não é o único.
 
Corte Seco, da Cia. Vértice de Teatro, mostra as possibilidade de ampliação da experiência teatral quando se rompem as convenções. Alguns chamam isso de metalinguagem, mas é muito mais. A metaliguagem, se fosse o caso, seria um recurso que revelaria o funcionamento da comunicação teatral, a peça dentro da peça. Em Corte Seco, ocorre um embaralhamento entre realidade, imaginário e representação. Por extensão, entre a vida dos atores e das personagens, entre o improviso e a marcação. Em outros termos, entre o real e o ficcionado.
 
No palco, a própria diretora, Christiane Jatahy, faz intervenções e muda a ordem das cenas. Será verdade ou foi tudo combinado? Esse mistério é muito excitante. Atores e atrizes são chamados por seus nomes reais. Mas seriam reais ou artísticos? Para complicar ainda mais o jogo, há no elenco celebridades (Du Moscovis, Marjorie Estiano), convivendo/contracenando com quem nunca apareceu na revista Caras. O uso do vídeo, que capta imagens de fora do teatro em tempo real, expande ainda mais as possibilidades de interpretação.
 
Mas e as histórias? São várias e se cruzam. Há o casal em crise porque ela não quer ter filhos. Há o menino apaixonado pela atriz famosa. Tem até um garoto que revela querer ser mulher. A mãe responde que já sabia que ele usava suas roupas escondido, mas pensava que era um segredinho entre eles.
 
Se no teatro do absurdo representava-se o vazio, Corte Seco inverte a equação e aponta para o vazio da representação. No lugar da angústia, a fruição do tempo. E o deleite de saber que a história sempre pode ser diferente.

Escrito por Ferdinando às 17:22:50

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